“A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor, eis que permite que o objeto dela se divida em outros afetos, enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade. E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos! Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências…”

Separei este trecho de um texto de Vinícius de Moraes. Talvez porque não consiga começar com tamanha genialidade. Talvez porque acredite piamente em suas palavras. Pois eu tenho amigos que são verdadeiros engenheiros. Constroem pontes que nos fazem atravessar mares de tristeza e angústia e nos levam a um continente cheio de felicidade e carinho. Lá não existem leis rígidas, tampouco punição. Todos têm o direito de chorar, sorrir, se emocionar. Afinal, a ponte continua em pé.
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O maior problema da segunda-feira é que sentimos seu efeito. Assim como o domingo que mais parece música no fim de um filme.
A garota mais do que confusa passou a segunda sozinha, comendo um pote de Nutella, assistindo à 7ª temporada de Arquivo X.
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Nas férias, acordar às dez da manhã é madrugar. Porque aumenta meu dia de tédio, sem muito o que fazer. Tento colocar mais graça nas horas escolhendo um cd na gaveta. Cds, discos esquecidos na gaveta são como memórias escondidas: um amontoado de recordações que alguém precisa tocar para serem lembradas. Eu justamente toquei a canção errada.
Dizem que uma das piores dores do mundo é a da partida. Discordo. Saudade queima muito mais. A partida acontece em questão de minutos. A saudade? Ah, a saudade… Ela fica adormecida por meses, esperando por um momento propício e, sem mais nem menos, aparece avassaladora. Tirando nosso ar, descolorindo nosso mundo, enfeiando toda a casa. E dura uma eternidade para sumir.
As horas seguintes foram cheias de aflição.O telefone não tocou, a cachorra não latiu, a saudade não passou. Tarde demais para trocar de cd. Tarde demais para lhe procurar.
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Há no ato de cozinhar uma profusão de afeto sem fim. Se nas mãos e na cabeça existe certa alquimia, combinando temperos, harmonizando sabores, tenho a certeza de que é justamente no coração que reside o ingrediente chave para o sucesso da receita.
Por exemplo, descobrir que seus dotes culinários não são páreo para um “felizes para sempre” pode ser desesperador. Mas enquanto não posso adquirir brunellos, barolos, grand crus e afins, contento-me em deliciar-me com o melhor da mesa: a cozinha da mãe (não a minha) cheia de orégano, ervas e com uma dispensa interminável de carinho.
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É a cara dessa página em branco que me matava…

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