Ele que há tanto tempo conheço, que tantas confidências trocamos, apareceu de um jeito diferente. Qual será a mudança? Talvez seus cabelos, que naquela noite estiveram entre meus dedos, tenham adquirido o brilho das luas cheias, daquelas que refletem no litoral. E se cada fio era da cor negra da noite, sua maciez dava-me a impressão de um amanhecer sem fim iluminando meus sonhos.

Seu rosto segurei-me para não tocar. Mas não pude conter meus olhos que percorriam cada traço encontrando um caminho que ainda hoje insisto em traçar. Quis fazer uma coleção de expressões para completar um álbum de figurinhas só meu. Para isso tentei fazê-lo rir, provoquei um pouco de emoção, troquei declarações impublicáveis. Quase completei as páginas, deixei só um pouco para depois e não vejo a hora de repetir.

Com que delicadeza sua voz chegava aos meus ouvidos. Lembrei-me e pensei em cantos meio divinos, meio profanos, todos lindos. Por vezes permaneci calada só para escutar, hipnotizada pelo que acontecia por ali.

Então comecei a me convencer de tanta beleza. Contemplei cada momento como se fosse único, como naquelas viagens que a gente não tem certeza se vão se repetir. Prestei atenção em todos os detalhes para guardá-los no lado mais escondido no peito, para não contar a ninguém.

No final refleti em como pode esse moço, que vejo sempre, tenha mudado tanto. E enfim descobri que ele sempre foi lindo, o que mudou foi meu jeito de observá-lo.

Por pouco aliás, basta uma bela música, um simples gesto de amizade, um local novo que conheço. Sou uma observadora nata e, se Leonardo da Vinci tinha razão quando falou que “os olhos são a janela da alma”, posso dizer que me livrei das cortinas faz tempo.

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